sexta-feira, outubro 20, 2006

 

Divagações - A Carreira de Investigador em Portugal: uma realidade (quase) virtual.

Depois de uma análise pelos vários sites de emprego científico em Portugal a primeira coisa que salta à vista é a total inexistência de anúncios para posições de investigadores juniores e séniores contratados pelos próprios institutos de investigação científica. Ao invés disso, são apenas anunciadas bolsas (de investigação, doutoramento, pós-doutoramento!). É claro que esta realidade reflecte a inexistência de contratação de investigadores por parte dos institutos científicos ficando assim a investigação em Portugal assente maioritariamente em bolseiros de investigação.

Se bem que as bolsas de investigação (nomeadamente as de doutoramento e posdoc) possam ser muito úteis durante a formação de um investigador, a não criação de lugares de investigadores, pelos institutos de investigacao, é uma realidade preocupante. À falta deste tipo de posições em Portugal, os cientistas portugueses vêem-se obrigados muitas vezes a sair para o estrangeiro aonde são contratados com todos os benefícios de um contracto laboral (não existentes no regime de bolsas). Esta opção faz com que Portugal perca o dinheiro investido na formação dos referidos investigadores, que acabam por ir desenvolver a ciência e tecnologia noutros países, deixando Portugal sem as suas mentes mais capazes. Por outro lado, a outra opção é sair da investigacao académica para as empresas de biotecnologia e farmacêuticas. Embora esta opção possa até ser desejável para desenvolver o tecido empresarial biotecnológico é preciso ter em conta que a investigacao académica é o que permite, na grande maioria dos casos, avanços cinéticos que podem ser depois aplicados à industria. Uma terceira opção será conseguir um contracto de docência com uma universidade e ao mesmo tempo fazer investigacao. Esta opção leva a que muitas vezes se tenha bons investigadores a dar aulas mas que acabam por ser maus professores porque pura e simplesmente só dão aulas para poderem fazer docência, sem qualquer motivação na carreira de docência per se. O problema inverso também acaba por surgir: bons professores que acabam por ter que fazer alguma investigarão mas que não têm muito interesse nessa área surgindo. Estas duas vertentes culminam sempre com a baixa produtividade científica portuguesa ora porque se perde tempo de investigação para a docência ora porque a aptidão para a docência é superior à aptidão para a investigação.

Sem a criação de posições de investigadores contratados, em que os institutos de investigação passem a ter o seu próprio quadro de investigadores, a ciência em Portugal estará sempre condenada a ser realizada por bolseiros, sem contractos de trabalho e sem protecções laborais, o que leva a um baixo nível de produção científica. O que se repara em que em qualquer instituto cientifico, em países com um sólido desenvolvimento tecnológico, é a existência de pessoal de investigação contratado para realizar apenas investigação. E esses institutos são geridos como empresas no que diz respeito ao seu pessoal. Criam estabilidade de postos científicos e conseguem assim, mais facilmente, cativar os bons investigadores e desenvolver a ciência e tecnologia. É verdade que existem os apoios à inserção de mestres e doutorados em empresas, lançados pela FCT, mas é para empresas. E isto é pouco, muito pouco, e falta todo um tecido para consolidar a investigação académica.

Em suma, um bom número de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento são desejáveis para apostar na formação dos investigadores mas só não chega. E enquanto não for criada a carreira de investigação, com investigadores contratados pelos institutos de investigação separados da carreira de docência, será sempre muito difícil travar a fuga dos nossos investigadores e por consequência desenvolver verdadeiramente a ciência e a biotecnologia em Portugal. É preciso começar a tratar os institutos de investigação como entidades de gestão empresarial, que embora sem fins lucrativos, possam ser encarados como empresas no que diz respeito à sua forca trabalhadora.

Comments:
Oh Lindo, tens toda a razão. Aqui não se dá o devido valor às boas cabeças que temos.

Mas é preciso ter calma. Mais tarde ou mais cedo, as coisas acontecem.
 
Ois...
Olha, que sites de emprego costumas consultar? Partilha aqui com a malta...
Bom fds.
 
E quem "escreve" assim nao é gago!!!
Hasta guapo!
Beso
 
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